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A MONOGAMIA VAI ACABAR? - Babel FM

A MONOGAMIA VAI ACABAR?

Enquanto mais casais experimentam diferentes formatos de relação, especialistas opinam sobre o futuro do amor

“Prometo ser fiel até que a morte nos separe”. A frase clássica das cerimônias de casamento já não faz o mesmo sentido que antigamente. Ok, para muitos casais, o ato de ver o parceiro sendo romântico ou se envolvendo fisicamente com outra pessoa ainda é um limite inaceitável. Mas há quem diga que este modelo de relação – a monogâmica – está com os dias contados: ninguém desejará ter um parceiro só pelo resto da vida.

O futuro incerto do amor está sendo constantemente disputado por grupos, assim como a política e os costumes. Entre ondas liberais e conservadoras, o jeito de amar segue sofrendo profundas transformações. Universa conversou com especialistas e casais que vivem diferentes modelos de relacionamento para tentar entender qual o futuro do amor – spoiler: não há consenso sobre como serão as relações em algumas décadas. No entanto, existe um denominador comum: o de que estamos passando por um momento de transição.

Imagine que você está em uma festa com seu namorado e ele, que bebeu demais, confunde você com outra menina — que tem a roupa e o cabelo parecidos. No engano, ele tenta beijá-la. Sem saber da situação, ela aceita. Mas assim que começa o beijo, ele para assustado, percebe o erro e se desculpa com todas as partes envolvidas. Isso é motivo de término?

A história acima quase aconteceu com Letícia Almeida, de 27 anos. Ela conheceu o noivo, Henrique, na faculdade. Desenvolveu com ele uma amizade, que evoluiu para um namoro e, atualmente, os dois estão de casamento marcado.

Um dia, quando o compromisso já tinha dois anos, foram a uma balada. Ele, que não está acostumado com bebidas alcoólicas, virou alguns drinks rápido demais. Bêbado, beijou a menina que estava do seu lado. Mas, com a mente confusa, ficou na dúvida: aquela era mesmo a sua namorada ou só alguém com o cabelo parecido?

Parou o beijo assustado e deu dois passos para trás.

Por sorte, era ela.

O episódio aconteceu há dois anos, mas o casal de farmacêuticos conversa sobre isso até hoje. Letícia afirma que, se Henrique tivesse beijado a pessoa errada, o namoro teria encerrado. Ele argumenta: “Se tivesse acontecido, não seria porque eu senti atração por outra mulher ou procurei alguém diferente. A minha intenção teria sido beijar você”.

Ela, no entanto, considera que teria sido difícil perdoar. Na sua visão, uma parte fundamental da relação teria se rompido e, portanto, seria impossível continuar depois de presenciar a cena.

O casal está satisfeito na monogamia — mas, para outros, esse modelo não atende mais aos seus anseios e expectativas amorosas.

Amor em tons de cinza

O tempo em que o poliamor — uma configuração de relacionamento que pode envolver três ou mais pessoas — era associado a um estilo de vida alternativo acabou. Se antes experiências do tipo eram limitadas às comunidades hippie, e viver um relacionamento monogâmico era sinônimo de formar uma típica “família tradicional brasileira”, hoje a área cinza entre estes extremos é cada vez maior.

As variações são tantas que podem confundir inclusive quem não se encaixa em nenhuma destas categorias. É o caso de Marina Rotty, de 41 anos. Casada com Márcio há 21 anos, leva uma vida que pode ser descrita como comum: o casal tem filhos, participa de atividades comunitárias no bairro e costumava ir à igreja. No entanto, guardaram uma parte da vida em segredo até pouco tempo. Depois de sete anos vivendo uma relação de exclusividade, decidiram se abrir para novas experiências e passaram a frequentar casas de swing.

Hoje, adeptos da prática há catorze anos, postam vídeos sobre o tema na internet e ministram um curso para casais interessados em ingressar neste universo. Por fazerem sucesso nas redes, decidiram assumir seus gostos também para familiares e conhecidos — e precisaram deixar a igreja que frequentavam. Na falta de uma denominação específica para sua configuração de relacionamento, eles preferem se intitular como “casal swinger” ou “casal liberal”.

Para evitar a confusão de termos, veja as definições mais recorrentes de cada palavra:

Poliamor

Possibilidade de estabelecer mais de uma união afetivo-sexual com a concordância de todas as partes envolvidas.

Relacionamento aberto

Possibilidade de criar vínculos extraconjugais restritos ao âmbito sexual, com a ideia de que a relação amorosa se dá apenas com uma pessoa.

Não-monogamia

Termo amplo para práticas que rompem com o padrão monogâmico. Entre elas, o poliamor, o relacionamento aberto e o swing.

Até que a morte nos separe?

O espanhol Manuel Lucas Matheu, presidente da Sociedade Espanhola de Intervenção em Sexologia, nega que a monogamia tenha se estabelecido como a forma predominante das relações por ser um instinto natural dos seres humanos. “Ela só está presente em 3% dos mamíferos”, diz. O sexólogo também cita o atlas etnográfico de Murdoch que, nos anos 60, analisou 238 diferentes sociedades do mundo e constatou que apenas 16% delas eram monogâmicas.

Por que então adotamos o modelo? Segundo o pesquisador, o motivo principal está na economia. “Estudos sociais e biológicos confirmam que a predominância da monogamia na sociedade está associada à escassez de recursos”, afirma. Tal como as cegonhas, que não têm tempo de variar os parceiros porque gastam muita energia em seus deslocamentos, decidimos nos juntar em pares porque este seria o modelo de vida menos custoso para a sobrevivência da nossa espécie.

Regina Navarro Lins, psicanalista e escritora, tem uma interpretação semelhante da história. “5 mil anos atrás, não havia a ideia de casal. As pessoas viviam em comunidade e homens e mulheres transavam entre si. O cenário mudou com a percepção de que o homem também participa na procriação. Com isso, surgiu a propriedade privada: ‘meu rebanho’, ‘minha terra’. Assim, a mulher foi aprisionada e teve seus desejos reprimidos. Os homens não queriam correr o risco de deixar suas heranças para os filhos de outros”, explica.

Expansão do conceito

Antonio Cerdeira Pilão é antropólogo e pesquisa sobre o poliamor desde 2011. Ele relembra que os primeiros debates públicos sobre o tema surgiram no Brasil, em 2006, sob influência da publicação de uma nova edição do livro ‘Cama na Varanda’, de Regina Navarro Lins, também entrevistada pela reportagem, e que a primeira união poliafetiva reconhecida em um cartório ocorreu em 2012, em Tupã (SP). Nesse período, ao seu ver, o debate ainda era superficial.

“O poliamor era tratado por poucos grupos na internet, a maioria deles de pessoas com posições políticas de esquerda e com curso superior, engajadas em uma luta contra a moral cristã e a repressão da sexualidade. Eram conversas restritas a algumas bolhas, que ganharam características de movimento político, associando-se a pautas feministas e LGBT. As pessoas poliamoristas tendiam a romantizar o poliamor, como se estivessem descobrindo um mundo novo, fantástico, que resolveria os problemas práticos do grande mal que reconheciam na monogamia”, afirma.

Agora, vivemos o que o pesquisador chama de “segunda onda poliamorista”. Mais gente tem se interessado pelo conceito, o conhecimento sobre o tema se disseminou e por isso a diversidade aumentou. Pessoas de diferentes classes sociais e posicionamentos ideológicos estão testando esse tipo de relação.

Foi assim com a empresária Sanny Rodrigues, de 27 anos, de Brasília (DF): ela conheceu o marido, Diego, pelo Orkut e pediu emancipação para se casar aos 16 anos. Eles viveram uma relação tradicional por quatro anos, até irem juntos a uma festa e confessarem, um para o outro, que sentiram atração pela mesma menina. O diálogo abriu portas para que Sanny expusesse a bissexualidade e criou uma brecha para que ambos ficassem com outras mulheres, sempre juntos. Anos depois, foram pela primeira vez a uma casa de swing.

Percebendo, no entanto, que somente o sexo a três não atendia ao modelo de relacionamento que procuravam, iniciaram a busca por um terceiro elemento. “A partir daí, tudo aconteceu de forma intensa. Conversamos com algumas pessoas pelo Tinder, e nosso segundo encontro com uma pessoa de lá já foi com a Karina. A conexão foi imediata”, conta.

Em menos de três meses, ela passou a morar com os dois, que já tinham um filho. Hoje o trisal mantém uma página no Instagram voltada para falar sobre sua rotina e matar a curiosidade daqueles que buscam entender mais sobre o poliamor. Detalhe importante, o relacionamento deles é fechado. “Muita gente pensa que não temos ciúmes, mas isso não é verdade. Fizemos terapia no início da relação para trabalhar as inseguranças que surgiam na convivência entre nós. Além disso, temos um relacionamento fechado, por isso não nos envolvemos com ninguém de fora. Trair, na nossa concepção, é ferir os acordos existentes”, diz Sanny.

Não há garantia

Nem só de elogios vive o poliamor. Com a expansão do conceito, vieram também as críticas. Antes o modelo de relacionamento estava intrinsecamente ligado ao feminismo. Afinal, ao longo da história a diversidade de parceiros foi um privilégio masculino: era socialmente aceito que os homens traíssem suas esposas, mas se esse comportamento partisse de uma mulher, ela sofria diversos tipos de repressões.

Sendo assim, o poliamor passou a representar um tipo de libertação afetiva e sexual para as mulheres. No entanto, recentemente ele começou a ser criticado pelas próprias militantes do movimento feminista.

Maria Gabriela Saldanha é escritora e se dedica ao tema da libertação afetiva de mulheres. Em seu livro “Bom dia, Matriarcado”, questiona a forma como os novos formatos de relacionamento vêm sendo apresentados nas relações heterossexuais. “Querem nos vender o argumento de que tudo o que está fora da monogamia é um arranjo melhor e menos machista, mas isso está errado”, diz.

Na sua visão, existe o risco de a sociedade criar um novo padrão ao qual as mulheres precisam atender. “O que percebo é que muitas delas estão se esforçando para se adequar a um novo modelo, sem que se deem tempo para conhecer e respeitar seus próprios limites. Agora, precisam corresponder a uma caricatura, um estereótipo de gênero da mulher bem resolvida, segura sexualmente, não competitiva e empoderada”, afirma.

Ela critica o fato de muitas jovens, que ainda não tiveram uma gama suficiente de experiências afetivas, estarem sendo pressionadas a se encaixar nestes novos formatos. Além disso, Maria Gabriela acredita que, independentemente do arranjo da relação, as mulheres continuam vulneráveis a diferentes tipos de violência, incluindo a psicológica.

“Apesar da diversidade de parceiros, os novos arranjos não são garantia de que haverá responsabilidade afetiva na relação. Para que esta responsabilidade fosse colocada em prática, seria necessário que os homens enxergassem as mulheres como seres humanos completos”, diz. O que ainda impede isso? A exploração emocional de mulheres dentro dos laços afetivos, que é um fator estrutural, decorrente da socialização de gênero.

É a partir dela que a sociedade internaliza que uma relação amorosa bem-sucedida seja o ápice da vida feminina. “É em nome desse ideal que muitas se sujeitam e se sacrificam, a fim de criarem um suposto vínculo com o outro”.

O futuro do amor é livre?

Pesquisadores da área afetiva opinam sobre o assunto:

Regina Navarro Lins, psicanalista

O amor é uma construção social. Em cada período da história ele se apresenta de uma forma. Hoje o amor romântico, incentivado pelos filmes de Hollywood, ainda predomina. Esse tipo de amor propõe que os dois vão se transformar num só, que cada um terá todas as suas necessidades satisfeitas pelo outro, que quem ama não se interessa por mais ninguém. A questão é que a sociedade contemporânea anseia por individualidade. Cada um quer desenvolver suas potencialidades. Por isso, o amor romântico está dando sinais de sair de cena, levando com ele a exigência da exclusividade. Acredito que daqui a algumas décadas menos gente vai se fechar numa relação a dois e a maioria vai optar por relações múltiplas

Antonio Pilão, doutor em antropologia

As pessoas tendem a simplificar o debate: ou a monogamia é a vilã ou é a mocinha. Acredito que nenhum modelo de relação é capaz de satisfazer plenamente os nossos anseios. Vivemos uma contradição: por um lado, desejamos prazer ilimitado. Por outro, queremos ser o objeto de escolha exclusiva de alguém. Algumas pessoas optam pela liberdade, outras pela segurança. Existem também as que traem ou que vivem períodos alternados de monogamia e solteirice. É importante dizer, no entanto, que o Brasil não é e nem nunca foi tão monogâmico como alguns acreditam. Pessoas e relações não-monogâmicas existem, mesmo que o Estado brasileiro continue a não reconhecê-las

Ana Canosa, psicóloga e sexóloga

Desenvolvemos um formato de relação influenciado pelo ideal de amor romântico: com posse, desigualdade de gênero, exclusividade e expectativa de felicidade depositada no par. A partir de transformações sociais, no entanto, muitas pessoas passaram a testar novas formas de relação. Hoje é possível ter mais de um vínculo amoroso, fazer sexo com mais de uma pessoa e ainda assim manter uma relação ‘principal’. No geral, não acho que a monogamia está acabada. Ela é uma maneira de vivenciar o amor de maneira funcional e cômoda. Muita gente tem fases muito monogâmicas e depois muda de ideia. A tendência é que as pessoas se abram cada vez mais para testes e que vivam experiências de ambos os formatos ao longo da vida

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